Curso — Tesouraria BR

Módulo 8 — Risco de mercado

Medir e dimensionar o risco de mercado de uma carteira: sensibilidades, VaR, stress e basis risk.

Objetivos

Medir e dimensionar o risco de mercado de uma carteira — com foco em derivativos: sensibilidades, VaR, stress test e o risco residual de um hedge.

Teoria essencial

O que é risco de mercado. É o risco de perda por movimentos de preços de mercado: taxa de juros, câmbio, índices, spreads. A mesa precisa medir esse risco e dimensioná-lo contra limites definidos pela área de risco.

1) Sensibilidades — a primeira camada

Antes de qualquer modelo estatístico, a mesa mede o quanto a carteira se move quando um fator se move 1 unidade.

DV01 / PV01: variação do valor da carteira para 1 bp de mudança na taxa: . É a sensibilidade-chave de qualquer book de juros.

Exposição cambial: o valor em moeda estrangeira que está descoberto. Gregas (para opções): delta, gamma, vega, theta. Para o book linear de tesouraria, DV01 e exposição cambial são as sensibilidades centrais.

O DV01 do book é a soma dos DV01 de cada posição (com sinal): comprado e vendido se compensam. Um book pode ter R$ 200 mi de posições e DV01 quase zero se estiver casado.

2) VaR (Value at Risk) — a perda potencial

O VaR responde: "qual a perda máxima esperada, num horizonte, com um nível de confiança?" VaR paramétrico (variância-covariância):

com para 95% e para 99%. Para um book de juros, é prático usar a sensibilidade: .

Escala temporal (regra da raiz do tempo): .

VaR de carteira, para dois fatores com VaR individuais e e correlação :

Se , o VaR da carteira é menor que a soma — é o benefício de diversificação.

Limitações do VaR. O VaR não diz quanto se perde quando o limite é estourado (a "cauda") — por isso existe o Expected Shortfall (ES / CVaR): a perda média condicional a estar além do VaR. O VaR paramétrico assume distribuição normal e volatilidade estável — subestima eventos extremos. O VaR é um número de condições normais; não substitui o stress test.

3) Stress test — o complemento indispensável

O stress test aplica choques grandes e não-estatísticos (cenários, não probabilidades): "e se a curva abrir 200 bps?", "e se o dólar saltar 15%?". Usa as sensibilidades: para juros. Captura o que o VaR não vê: a cauda.

4) Basis risk — o risco que sobra depois do hedge

Um hedge raramente é perfeito. Basis risk é o risco residual quando o instrumento de hedge não é idêntico ao item protegido: hedgear uma debênture CDI+ vendendo DI1 deixa o risco de spread de crédito; hedgear NTN-B com DAP de prazo diferente deixa o risco da diferença de duration. A lição de mesa: medir o risco bruto, o coberto pelo hedge e o residual — e decidir se o residual está dentro do apetite de risco.

ℹ️ Exemplo de mesa

O book de juros tem DV01 de R$ 30 mil. A volatilidade diária da taxa de 1 ano é cerca de 10 bps. VaR 1 dia 99% ≈ 30.000 × 10 × 2,326 = R$ 697.800. A área de risco impõe limite de VaR de R$ 600 mil. O operador está acima do limite e precisa reduzir posição. Paralelamente, o stress de "+250 bps na curva" projeta perda de 30.000 × 250 = R$ 7,5 mi — número que vai ao comitê de risco.

Exercícios — Módulo 8Básico

  1. 8.1
    Uma posição vale R$ 10.000.000 e tem duration modificada 2,10. Calcule o DV01.
  2. 8.2
    Com o DV01 do 8.1 e volatilidade diária da taxa de 12 bps, calcule o VaR 1 dia a 95% e a 99%.
  3. 8.3
    Converta o VaR 99% do 8.2 para um horizonte de 10 dias (regra da raiz do tempo).
  4. 8.4
    Uma posição comprada de R$ 5.000.000 em dólar tem volatilidade diária de retorno de 1,1%. Calcule o VaR 1 dia a 95% e a 99%.
  5. 8.5
    Um book tem +R$ 18.000 de DV01 numa posição e −R$ 11.500 em outra. Qual o DV01 líquido do book?
  6. 8.6
    Stress test: a posição do 8.1 sofre um choque de +150 bps na curva. Qual a perda no cenário?
  7. 8.7
    Dois fatores de risco têm VaR individuais de R$ 80.000 e R$ 50.000. Calcule o VaR da carteira para ρ = 1,0; ρ = 0,3; ρ = 0,0; ρ = −0,4.
  8. 8.8
    No 8.7, qual o benefício de diversificação (em reais) no caso ρ = 0,3?

Exercícios — Módulo 8Nível mesa

  1. 8.9
    Explique a diferença entre VaR e Expected Shortfall (ES). Por que o ES é considerado uma medida de risco mais completa?
  2. 8.10
    Uma carteira de debêntures CDI+ tem DV01 de R$ 25.000. A mesa vende DI1 (DV01 de R$ 38/contrato) para hedgear. Quantos contratos? Qual risco sobra depois do hedge?
  3. 8.11
    Por que o VaR paramétrico tende a subestimar o risco em períodos de crise?
  4. 8.12
    O book de juros tem R$ 300 mi em posições, mas DV01 de apenas R$ 2.000. Como isso é possível? O book está "arriscado"?
  5. 8.13
    Por que o stress test é indispensável mesmo quando o VaR está dentro do limite?
  6. 8.14
    Ao hedgear uma NTN-B (juro real) vendendo DI1 (juro nominal), que tipo de basis risk a mesa assume?
  7. 8.15
    Uma mesa reporta "VaR baixo" mas tem grande perda num dia de Copom surpresa. Isso significa que o modelo de VaR estava errado? Explique.